sexta-feira, 28 de março de 2014

Os 10 anos do Furacão Catarina


Imagem da NASA do furacão  Catarina



A 10 anos atrás eu estava morando em Santa Catarina, cidade de Imaruí, lembro bem da tensão que foi este dia.
A cidade vivia sua maior data festiva, a festa de passos, uma festa religiosa que atrai milhares de turistas.
As bancas estavam montadas, um dia antes da festa, vem a noticia:  aproximava-se um furacão na costa catarinense.
Eu morava em frente a praça principal, me preparei para o furacão, acompanhando toda sua aproximação pelo rádio, pois internet nesta região não existia na época.
Como um apaixonado por meteorologia, não escondo que além do medo, eu estava eufórico com a situação.


 Talvez nenhum dia tenha sido tão tenso, nervoso e dramático para os meteorologistas do Sul do Brasil como o 27 de março de 2004, exatamente há 10 anos no dia de hoje. Foi quando o já formado furacão Catarina ganhou muita força e se organizou de forma bastante simétrica no litoral à medida que ficava mais próxima da costa. A tempestade a cada hora era mais intensa no mar e inexistiam dados confiáveis sobre velocidade de vento pela ausência de bóias. Havia um monstro no oceano, porém não se sabia qual era a sua real força. Os únicos dados de vento que vinham eram estimativas do satélite Quickscat, que estão longe de oferecer uma ideia real. Melhor indicativo se tinha pela estimativa da escala Dvorak de ciclones tropicais que conferia nas últimas horas que precederam ao landfall um número 4.5, equivalente a vento sustentado em um minuto de 77 nós ou 142 km/h. Com base nas imagens de satélite e na escala Dvorak mantivemos o alerta de furacão no dia 27 e elevamos o tom da gravidade à medida que era cada vez mais evidente que estávamos a poucas horas de situação sem precedentes. ( Metsul)

O furacão chegou, não com tanta força como mais a sul de SC e litoral norte do RS, mas um vento como eu nunca tinha visto, a praça em frente a minha casa ficou destruída, árvores centenárias tiveram seu galhos arrancados como palitos de dente, as barracas da festa voaram como se fossem feitas de isopor.

A sua trajetória exata era um desafio de previsão, já que, diferentemente de outras partes do mundo, não existiam modelos de computador específicos para ciclones tropicais no Atlântico Sul. Sabia-se e se alertava ainda na sexta-feira (26/3) que o Catarina tocaria terra em algum ponto entre os litorais do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, mas não se tinha certeza exatamente sobre qual ponto. Quase toda a área entre Tramandaí e Florianópolis estava no cone de risco (nos Estados Unidos o cone de risco também chega a alcançar centenas de quilômetros na previsão de furacões). No fim do dia, alteração de rota levou o furacão para Torres e o Sul catarinense, que começaram a sofrer os efeitos do vento e da chuva com força à noite.  (Metsul)





Responsavelmente, poderia se ir a público para anunciar um furacão se a literatura técnica dominante à época dizia não ser possível que se formasse um no Atlântico Sul ? Confrontados com algo que para nós era inédito e não tínhamos qualquer experiência de prognóstico, nossos técnicos da MetSul (então Rede de Climatologia Urbana de São Leopoldo) não caíram na tentação da soberba e buscaram o parecer dos maiores especialistas do mundo. Se não estávamos seguros, e o sentimento era até de medo pelo que se vislumbrava, telefonamos para quem sabe. Para os maiores experts do planeta. O Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos. E a resposta que ouvimos foi enfática: “é sim um furacão”.

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